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O que é NFT? Ilustrador brasileiro explica como ganhar com Crypto Art

Criar arte em um ambiente digital tornou-se prática comum entre ilustradores e designers na última década. Isso porque, com o avanço da tecnologia de softwares, processadores e ferramentas de design, esses artistas ganharam espaço para explorar novos segmentos de arte digital, que se desenvolveram ao longo dos anos até alcançar seu ápice (até aqui) em 2021.

Em março, uma obra de arte digital de Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, foi vendida na casa de leilões Christie’s, uma das mais importantes da Europa, por £50 milhões (R$382 milhões). O vencedor, porém, não recebeu uma escultura, pintura ou mesmo uma impressão. Em vez disso, ele ganhou um token digital exclusivo, conhecido como NFT (non-fungible token – ou, em português, token não fungível).

Foi o primeiro leilão de uma obra de arte puramente digital na história, ação que reativou o interesse do público pelo mercado de arte. Assim, da mesma maneira que o Bitcoin foi saudado como a resposta digital à moeda, os NFTs agora estão sendo apontados como a resposta digital para colecionáveis. 

Para entender o NFT da perspectiva do Brasil, a Awari entrevistou Gustavo Rinaldi, ilustrador que vive em São Paulo trabalhando como freelancer. Ele está no TOP 10 de artistas brasileiros que estão faturando com NFT aqui no país. Mas, primeiro, vamos entender o conceito? 

Na imagem vemos uma colagem de várias imagens.
Arte feita por Beeple e vendida por 382 milhões de reais

O que são NFTs?

Um NFT é um ativo digital colecionável, que tem valor como uma criptomoeda em uma forma de arte ou cultura. Assim como a arte é vista como um investimento de valor, agora os NFTs também. Mas como?

Bom, NFT significa token não-fungível – um token digital que é um tipo de criptomoeda, muito parecido com Bitcoin, Ethereum ou Dogchain, que cresceram nos últimos anos. Mas, ao contrário de uma moeda padrão blockchain (nome dado a pedaços de código gerados online que carregam informações conectadas), um NFT é único e não pode ser trocado como por igual (por isso o nome: não-fungível).

Então, o que torna um NFT diferente de uma cripto moeda comum, como o Bitcoin, por exemplo? Basicamente, o arquivo de NFT armazena informações extras, o que o eleva acima da moeda digital e o permite armazenar ao blockchain qualquer arquivo de arte ou cultura. 

Os tipos de NFTs são variados, mas eles podem assumir a forma de uma arte digital ou um arquivo de música, por exemplo – ou qualquer coisa única que possa ser armazenada digitalmente. Essencialmente, eles são como qualquer outro item de colecionador físico, mas em vez de receber uma pintura a óleo sobre tela para pendurar na sua parede, por exemplo, você recebe um arquivo JPG (como as fotos da galeria do seu celular).

Como funcionam os NFTs?

Os NFTs fazem parte do blockchain Ethereum, porém, diferente de um blockchain comum, eles são tokens individuais com espaço para armazenar informações extras. E é justamente essa informação extra que os torna especiais e lhes permite assumir a forma de arte, música e vídeo, na forma de JPG, MP3, vídeos e GIFs. 

Por terem valor, eles podem ser comprados e vendidos como outros tipos de arte – e, como na arte física, o valor é definido pelas tendências do mercado e pela demanda. Isso, porém, não quer dizer que haja apenas uma versão digital de uma arte NFT disponível no mercado. Da mesma forma que as impressões de uma arte original são feitas e vendidas, cópias de um NFT existem – mas não tem o mesmo valor que o original.

Isso mesmo. Não pense que você hackeou o sistema clicando com o botão direito do mouse e salvando a imagem de um NFT. Isso não fará de você um milionário porque seu arquivo baixado não conterá as informações que o tornam parte da blockchain Ethereum.

Hoje, artistas, músicos, influenciadores e franquias esportivas estão usando NFTs para monetizar bens digitais que antes eram baratos ou gratuitos. A tecnologia também responde à necessidade de autenticação e proveniência do mundo da arte em um mundo cada vez mais digital, vinculando permanentemente um arquivo digital ao seu criador.

Em teoria, qualquer um pode criar seu trabalho para vender como um NFT, mas o interesse foi alimentado por manchetes recentes de vendas multimilionários.

NFTs no Brasil

Com o sucesso mundial, os NFTs também chegaram ao Brasil, e não é só quem conhece do mercado de criptomoedas e artes que está lucrando com isso, pelo contrário, artistas nacionais estão produzindo cada vez mais NFTs e construindo a vida com a tokenização de suas artes.

De acordo o programa Debate Descentralizado, diversos artistas, sejam eles ilustradores, design ou entusiastas da arte no Brasil, estão produzindo artes digitais e transformando este trabalho autoral e único em NFTs, que são comercializados em plataformas deste mercado como o OpenSea, Rarible, Makersplace.  

Para entender o NFT da perspectiva dos artistas brasileiros, a Awari entrevistou Gustavo Rinaldi, ilustrador que vive em São Paulo trabalhando como freelancer. Ele está no TOP 10 de artistas brasileiros que estão faturando com NFT aqui no país. 

Awari: Como você começou a produzir NFTs?

Gustavo: Eu me formei em artes plásticas e visuais. Só que eu acabei saindo um pouco da área de artes e fui para área de ilustração. Durante muito tempo eu trabalhei fazendo tudo na mão, mas com o tempo migrei totalmente para o digital, até por questões de trabalho. Hoje, 90% do que eu faço como trabalho é digital 

Essa coisa do NFT apareceu no meio disso. O pessoal do Makersplace entrou em contato comigo antes de estourar o NFT aqui no Brasil, no começo do ano passado (2020). Eles me explicaram o que era NFT e falaram: olha, nós criamos toda uma plataforma onde você, basicamente, só irá subir a sua ilustração e nós vamos gerar o token e colocaremos para venda. E eu pensei, por que não? Era uma oportunidade a mais para faturar com o meu trabalho

Com a plataforma já estruturada, eu, basicamente, deixei minhas ilustrações nessa plataforma de NFT e me esqueci delas durante vários meses até aparecer compradores.

*Os NFTs de Gustavo podem ser vistos aqui:

Como você começou a vender seus NFTs? 

Gustavo: Durante os meses que deixei as ilustrações na plataforma, não aconteceu nada. Ainda estava muito no começo. No meio de 2020, porém, eu tive uma pessoa que se interessou em comprar. Só que ele fez um lance muito baixo. Vou explicar como funciona o Makersplace.

Na plataforma, você pode ter uma obra única, ou gravuras (tiragens de várias obras) e foi o que eu fiz. Coloquei três trabalhos. Essa pessoa, na época, me ofereceu, por uma tiragem, uma certa quantia de Ethereum que daria 5 dólares americanos na conversão. A plataforma então, me apresentou a oferta, mas disse que não recomendava a venda, pelo valor ser muito baixo. E eu acatei a decisão.

No início de 2021, eu tive uma oferta que achei legal e aceitei. Logo após a venda, começou esse boom de NFT aqui no Brasil. Depois desse boom, eu percebi a dimensão que esse token tinha e a oportunidade de crescimento com ele. 

Como funciona o processo de venda de NFTs no Brasil?

Gustavo: O que os artistas têm feito hoje em dia é atrelar a arte ao Ethereum. Desta maneira, você precisa de alguma plataforma que possa te gerar um token. Eu, sozinho, não posso criar um token. Porque o token nada mais é do que um endereço. Ele é o que autentica a dizer: esse é o trabalho original. E são as plataformas de venda de NFTs que geram esse token. 

Um grande problema aqui no Brasil é a desvalorização da moeda, o que afeta na hora de fazer o câmbio do dinheiro. Eu até posso fazer o que eles chamam de “mintar” pegar um número de token do meu trabalho para mim, porém eu teria que pagar algum site especializado para produzi-lo. 

Neste cenário, surgem as taxas. E os valores do NFT, assim como do Ethereum, ou qualquer outra criptomoeda, flutuam. Assim, conheço pessoas aqui no Brasil que pagaram 40 dólares para fazer esse “minti”. Se o artista vende sua obra por um bom valor, faz sentido, porque ela terá um retorno bacana. Mas para alguém que está começando nessa área e que não consiga vender, essa pessoa gastou R$250 por um número que ela não terá retorno nenhum. 

As plataformas, inclusive, me dão a liberdade para escolher o preço que eu quero para determinada obra ou deixar em aberto, no caso de um leilão. Você continua tendo controle sobre o que produz. E, neste processo, você recebe dicas: de não vender por um valor muito baixo, como o mercado funciona. 

Nas plataformas, a única taxa que será cobrada antes da venda será o Gas Fee, que o processo que a plataforma irá fazer para gerar seu número de token.

Qual o principal problema com os NFTs?

Gustavo: Um problema que, sem dúvidas, é inerente ao NFT é: se o site onde está hospedada a arte sai do ar, esse certificado também sai. Você continuará tendo um token que te indica para um lugar, mas não ele não existe mais. O que fez uma cópia do trabalho em seu computador ou na nuvem, você terá apenas uma cópia igual a de todo mundo. É um risco, mas difícil de acontecer.  

Quais suas dicas para quem quer trabalhar com NFTs aqui no Brasil?

Gustavo: Minha dica para quem está começando é utilizar essas plataformas para vender suas obras. Nelas, eu subo a minha arte, eles administram toda parte burocrática e depois tem uma pequena porcentagem, de acordo com o valor da venda. 

Outra dica é: desde o meu começo com NFTs, eu sempre trabalho com a mesma plataforma de venda. E vejo isso como uma vantagem, afinal as ilustrações de NFT são exclusivas. Diferente das outras obras que produzo, que podem ser compartilhadas como cópias, porque me interesso que o máximo de pessoas possíveis tenham acesso. 

Eduardo Valim

Escrito por

Eduardo Valim

é redator na Awari e escreve sobre carreira e tecnologia.